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Cultura e Entretenimento

Dinis Ramos

Um projecto cultural não se esgota no entretenimento

A dificuldade em distinguir cultura de entretenimento – mesmo para alguns decisores políticos – não se afigura uma tarefa completamente exequível. A confusão entre os dois conceitos persiste. Ora vejamos: aquando do lançamento do Festival Aqui Acolá deste ano falou-se na afirmação cultural de uma vila empreendedora e criativa.

Dado o seu passado histórico – com vários jornais concelhios, salas de cinema e clubes de leitura de onde saíram vários pensadores – este desejo não poderia deixar um pontassolense mais satisfeito. O nosso passado cultural seria projectado no presente com vista a afirmar a Ponta do Sol como destino de turismo cultural no futuro.

Infelizmente ainda não houve esta visão estratégica, que agregasse os mais importantes sectores de actividade numa perpesctiva global: património natural e edificado, turismo e agricultura, todos como instrumento de projecção e afirmação da cultura pontassolense.

A opção tem sido outra. Olhar individualmente para cada um deles, sem os complementar entre si. E o resultado é aquele que temos hoje: um cartaz de quase exclusivo entretenimento.

Contrata-se sem critério os artistas da moda – muitas vezes com um enorme esforço financeiro para o Município – e espera-se que não chova para atingir uma boa afluência de público nesses dias. Após o último dia de festival, arrumam-se as coisas, limpa-se a vila, e tudo acabou. Agora só daqui a um ano.

Caros leitores – se me permitem, e em bom rigor, – este Festival não se afasta muito de um programa de festas de verão, daqueles que existem por toda a ilha, cujo sucesso é medido unicamente pelo número de visitantes.

Ora, isto não é cultura. Para haver uma aposta na cultura não basta haver capacidade monetária. É preciso um plano a médio/longo prazo que marque pela diferença, pois é na autenticidade que está a nossa identidade. E cultura é isto. É ter identidade.

Conhecer e valorizar o passado. Ensinar a pensar. Fomentar o espírito crítico. Criar condições para que a individualidade humana seja criadora de conteúdo. Apostar no talento e na divulgação de tradições locais. Isto, sim, é investir na cultura.

Perante a ausência de um plano concertado para a cultura, o Município da Ponta do Sol vai vivendo da carolice dos mecenas e investidores privados, bem como do esforço das suas associações recreativas e culturais, cuja actividade – não fosse o Governo Regional a assumir os cortes da Câmara Municipal – estaria seriamente em risco.

Não deixemos que o investimento no entretenimento – para o qual também deve haver espaço – esgote o nosso conceito de programa cultural. E façamos da cultura um plano para o dia a dia do Município.

Dinis Ramos
Presidente do Conselho de Jurisdição da JSD Madeira



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