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É preciso sair da ilha para ver a ilha

O regresso a casa fez-me ver a Madeira com outros olhos. Apercebi-me, assim, que tive a sorte de nascer num cantinho do céu.

A ideia surgira algures pelos 12 anos e o sonho de ser Fisioterapeuta não parou de crescer.

            Por norma, assim que um jovem atinge a maioridade, é-lhe exigido que decida o que estudará nos próximos 3 a 4 anos de licenciatura e o que fará com a sua vida daí em diante.  Para alguém determinado a seguir a sua vocação, não deveria haver dúvidas do caminho a seguir. A hesitação começa a surgir quando a realidade aponta para a ideia de abdicar do amor da família, do carinho das longas amizades, e do calor de um lar.

            As candidaturas são submetidas e só me resta aguardar. A incerteza sobre o que me espera faz-me repensar 1000 vezes cada escolha feita. As perspetivas tentam pintar-se bonitas – de volta à ilha, à família, aos amigos e ao lar, mas com o canudo na mão. As colocações saem. A decisão final estava tomada e não havia volta a dar: fui e deixei tudo para trás. Troquei o Oceano Atlântico pelo Rio Tejo e um lar por uma casa partilhada com aqueles desconhecidos que farão parte do mais próximo de um ambiente familiar que tenho a 974km de distância do verdadeiro. Tudo era novo. Era hora de começar do zero. Não havia tempo a perder. Tinha a obrigação de dar o meu melhor, não podia desiludir quem apostou no meu sucesso e depositou toda a sua confiança em mim.

Na faculdade, os primeiros tempos não foram fáceis. Não demorou muito até me aperceber que só poderia tornar-me mais forte participando em atividades onde me pudesse integrar naquele mundo novo. Na praxe conheci aquela que se tornou a minha segunda família. Para mim, a praxe nunca foi violência nem abuso. A praxe é integração e convívio. Nas aulas, cada professor deixava-me mais convicta de que havia escolhido o caminho certo. Foi aí que percebi que todos nós, professores e alunos, fazemos parte de uma família única, a família da Cruz Vermelha Portuguesa, da qual eu não poderia estar mais orgulhosa por fazer parte.

            Depois dos primeiros 6 meses o balanço era positivo. Finalmente não restavam dúvidas. Adquiri em tão pouco tempo a autonomia que, em conjunto com as novas amizades, estaria na base do meu futuro. “Não nos vemos se não saímos de nós”. Sair da ilha implicou ser independente, flexível, abrir novos horizontes e manter sempre a mente aberta. Ao chegar ao final do primeiro semestre, a sensação era a de dever cumprido. Estas não seriam umas férias quaisquer, vi-as como uma recompensa do meu esforço e uma recarga de energia para o semestre que se avizinhava. O regresso a casa fez-me ver a Madeira com outros olhos. Apercebi-me, assim, que tive a sorte de nascer num cantinho do céu.

            De facto, “é preciso sair da ilha para ver a ilha”.

Laura Araújo
Militante da JSD Madeira

#LiderarParaTi

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